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O Amor não
Existe sem Ciúme
(Umberto Eco, in 'A Ilha do Dia Antes)
Se o ciúme nasce do intenso amor, quem não sente ciúmes pela
amada não é amante, ou ama de coração ligeiro, de modo que se
sabe de amantes os quais, temendo que o seu amor se atenue, o
alimentam procurando a todo o custo razões de ciúme.
Portanto o ciumento (que porém quer ou queria a amada casta e
fiel) não quer nem pode pensá-la senão como digna de ciúme, e
portanto culpada de traição, atiçando assim no sofrimento
presente o prazer do amor ausente.
Até
porque pensar em nós que possuímos a amada longe - bem sabendo
que não é verdade - não nos pode tornar tão vico o pensamento
dela, do seu calor, dos seus rubores, do seu perfume, como o
pensar que desses mesmos dons esteja afinal a gozar um outro:
enquanto da nossa ausência estamos seguros, da presença daquele
inimigo estamos, se não certos, pelo menos não necessariamente
inseguros.
O
contacto amoroso, que o ciumento imagina, é o único modo em que
pode representar-se com verossimilhança um conúbio de outrem
que, se não indubitável, é pelo menos possível, enquanto o seu
próprio é impossível.
Assim o ciumento não é capaz, nem tem vontade, de imaginar o
oposto do que teme, aliás só pode obter o prazer ampliando a sua
própria dor, e sofrer pelo ampliado prazer de que se sabe
excluído.
Os prazeres do
amor são males que se fazem desejar, onde coincidem a doçura e o
martírio, e o amor é involuntária insânia, paraíso infernal e
inferno celeste - em resumo, concórdia de ambicionados
contrários, riso doloroso e friável diamante.
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